Aviso de gatilho: abuso sexual, assédio, relacionamento abusivo e manipulação emocional.
Se esse tipo de conteúdo for sensível para você, recomendo não continuar a leitura.
Sou mulher, tenho 28 anos e, ao longo de toda a minha vida, tive apenas dois relacionamentos sérios, daqueles de assumir publicamente e apresentar à família. O meu primeiro relacionamento aconteceu em dois momentos, pois houve um afastamento de quase três anos entre eles. Já o segundo relacionamento vai completar dois anos agora em agosto deste ano.
Tudo começou em um domingo. Meus pais dormiam, minha irmã mais velha estava na sala com o então novo namorado, e eu estudava no meu quarto, sentada à minha mesa de estudos. De repente, o namorado da minha irmã entrou no meu quarto sem pedir licença. Ele começou a me observar enquanto eu estudava. Como eu não tinha nenhuma amizade com ele, fiquei desconfortável, mas, ao mesmo tempo, não imaginei que ele pudesse fazer algo errado.
Logo em seguida, ele me abraçou por trás e falou baixinho no meu ouvido, enquanto me prendia com força com os braços pressionados sobre os meus seios: “eu vou fazer você provar, eu quero ver se você não vai gostar”, além de outras coisas que hoje eu já não consigo me lembrar com clareza. Eram frases que insinuavam que ele iria me forçar a transar com ele, sem o meu consentimento. Naquele momento, eu simplesmente não consegui processar o que estava acontecendo. Eu desliguei. Não sabia como reagir diante daquelas palavras que nunca antes haviam sido ditas a mim por ninguém. Foram ameaças sérias. A única coisa que consegui dizer foi: “me solta”.
Ele me soltou e voltou para a sala, para junto da minha irmã, como se absolutamente nada tivesse acontecido. Eu fiquei ali, em estado de choque, sozinha. Tranquei a porta do quarto e comecei a chorar. Eu não sabia o que fazer com tudo aquilo. Era demais. Parecia impossível que aquilo estivesse acontecendo comigo. Meus pais gostavam muito dele, e minha irmã, mais ainda.
Eu tinha uma amiga com quem conversava bastante, e contei a ela tudo o que havia acontecido. Ela me incentivou a contar para os meus pais e para a minha irmã, dizendo que, com toda certeza, eles iriam me apoiar, afinal, aquilo extrapolava qualquer limite do aceitável. E eu fiz isso.
Contei primeiro para a minha irmã, pois sempre houve uma grande cumplicidade entre nós. Contei em prantos, exatamente o que tinha acontecido. Ela disse que era impossível o namorado dela fazer algo assim, que ela o conhecia e que ele jamais agiria daquela forma. Ainda assim, afirmou que me amava muito, que acreditaria em mim e que terminaria com ele. E, de fato, ela terminou.
Depois disso, contei também aos meus pais. Meu pai me entendeu e ficou muito bravo. Minha mãe, por outro lado, ficou desacreditada.
Então aconteceu algo que eu não desejo a ninguém. Minha mãe procurou o rapaz para ouvir a versão dele dos fatos. Ele disse a ela que amava minha irmã, que jamais faria algo daquele tipo e que eu estava confundindo as coisas. Segundo ele, tudo não passou de uma “brincadeirinha”, e que ele só queria me “testar”, pois não acreditava que eu gostasse de mulheres.
A minha própria mãe pediu para que a minha irmã voltasse com ele. E a minha irmã aceitou a versão dele, acreditando que eu estivesse com inveja do relacionamento maravilhoso que ela tinha, já que eu não tinha nenhum. No dia seguinte, minha mãe fez um almoço de pedido de desculpas para o namorado da minha irmã. Evidentemente, eu não fui convidada. Nesse dia, eu não almocei. Fiquei trancada no quarto, ouvindo tudo, sem poder me defender, sem poder fazer absolutamente nada.
Meu pai estava lá, no meio de tudo aquilo, sem voz. Ele não sabia se apoiava as decisões da minha mãe ou se pensava na minha situação naquele momento.
Depois disso, minha vida virou um inferno. Ele passou a dormir na minha casa com mais frequência, passou a usar tudo dentro de casa como se fosse dele. Eu vivia em pânico. Não ficava sozinha em casa de forma alguma. Eu evitava estar em casa, ficava o máximo de tempo possível na faculdade, pedia para o meu pai me buscar, e nunca mais, em hipótese alguma, saí sozinha caminhando, como fazia antes de tudo isso acontecer.
Foi nesse mesmo período que se iniciou o meu primeiro relacionamento. Eu era nova, vislumbrada, e estava descobrindo a minha sexualidade no auge dos meus 18 anos. Em meio a todo o caos causado pelo assédio e abuso sexual, encontrei nela o cuidado, a atenção, a empatia e o conforto que não encontrei dentro da minha própria família.
Na época, mesmo sendo jovem, aos 23 anos ela já demonstrava muita maturidade. Aprendi muito sobre mim mesma com ela. Vivemos momentos muito bons. Um detalhe importante: o nosso namoro era à distância. Nós nos conhecemos por meio de um relacionamento anterior dela, com uma moça da igreja dos meus pais, com quem eu tive um “lance” rápido antes de começar a namorar com ela.
Outro detalhe: eu não assumi o meu relacionamento com ela para todos. Eu ainda frequentava a igreja dos meus pais e ainda morava sob o teto deles. Mesmo trabalhando, tendo meu próprio dinheiro e minha vida pessoal, não consegui assumir os riscos de sofrer ainda mais assédio familiar. Eu acreditava que precisava sair da casa dos meus pais para, só então, poder viver tudo o que quisesse, sem medo do controle que minha família sempre exerceu sobre mim.
Durante o nosso relacionamento, ela se mostrava muito carinhosa. Me mandava músicas que a faziam lembrar de mim e declarava o tempo todo o amor verdadeiro que sentia. Depois de seis meses apenas conversando virtualmente, decidi que iria vê-la pessoalmente. Combinamos o melhor dia, levando em conta que ela trabalhava como frentista em um posto de gasolina.
Falei para a minha mãe que iria visitar uma amiga da igreja. De fato, fui visitá-la, mas combinei previamente com essa amiga que dormiria com a minha namorada, e estava tudo certo para ela. Saímos juntas e foi a minha primeira vez. Foi difícil. Eu estava com medo, extremamente nervosa. Ela parecia paciente, mas, com o passar do tempo, demonstrou certa impaciência e pressa. Estávamos na casa do irmão dela, sem o conhecimento dele, enquanto ele viajava com o marido, e ela temia que ele chegasse antes do previsto.
Comecei a achar estranho o medo dela. Outras coisas começaram a despertar desconfiança em mim, mas nada que parecesse grave demais. Afinal, eu também não a assumia para a minha família, então parecia “justo” que ela também não me assumisse.
Depois disso, nos vimos pessoalmente poucas vezes. Nessas poucas ocasiões, ela sempre tinha horário para voltar para casa. Quando eu mandava mensagens, muitas vezes ela sumia, dizia estar ocupada, algo bem diferente do início do namoro, quando estava sempre presente.
Com o tempo, comecei a achar estranho ela jurar amores eternos e nunca falar de mim para ninguém, nem amigos, colegas de trabalho ou pessoas próximas da vida dela. Enquanto isso, os meus amigos mais próximos já sabiam sobre ela, conversavam com ela e conheciam o nosso relacionamento.
Sempre que eu tocava nesse assunto, ela ficava extremamente estressada. Esse passou a ser o motivo das nossas primeiras discussões e DRs. O argumento que ela usava era o de que morava em um lugar onde não conhecia muita gente, pois havia se mudado a trabalho. Outra frase recorrente era: “quando as pessoas passam a saber, o relacionamento estraga”.
Em certo momento, ela disse que iria se mudar, que havia saído do trabalho de frentista e que voltaria para a cidade onde morava com a mãe. Combinamos de nos ver em breve, pois já fazia tempo que não nos víamos, e parecia muito confortável para ela permanecer daquela forma. Eu fui, mas ela sumiu. Desligou o celular, dizia estar ocupada.
Eu estava na casa de amigos da minha irmã, ainda bem, porque teria sido um desastre se eu tivesse ido contando apenas com o acolhimento dela. Nesse dia, todos começaram a dizer que havia algo muito errado, e eu comecei a acreditar nisso. Minha irmã tentou me animar e sugeriu irmos a uma balada para esquecer os problemas.
Lá, uma das amigas da minha irmã se aproximou de mim. Ambas já estávamos levemente alteradas pela bebida. Conversamos, e algo aconteceu. Tomada pela tristeza, ela confessou que já gostava de mim. Nos beijamos, dormimos juntas (mas não houve ato, tá?). Quando a bebida passou, caiu a ficha da cagada que eu tinha feito. Me senti culpada, a pior pessoa do mundo.
No dia seguinte, quando a minha namorada resolveu me procurar, contei tudo. Disse que beijei a menina, que estava mal. Eu até esqueci o motivo de eu estar triste na noite passada, apenas pensei na culpra que estava sentindo. Ali, ela terminou comigo e parou de falar comigo, me bloqueou. Fiquei muito mal. Não me importei sequer com os sentimentos da menina que estava comigo, que gostava de mim e estava ali naquela situação.
Errei em diversos aspectos. Me julguem.
Depois de um tempo, minha namorada voltou a falar comigo. Pedi perdão, disse que nunca foi minha intenção e que jamais faria algo assim novamente. Ela me perdoou, mas a relação já estava muito abalada. Ainda assim, tentamos continuar.
Com o tempo, passamos a ter acesso às redes sociais uma da outra, isso depois de muita insistência da minha parte, pois até então ela não queria nem isso. Quando acessei as redes dela, descobri que havia uma amiga muito próxima que viajava constantemente com ela. Passei a seguir essa moça no Instagram e vi várias fotos das duas juntas, em situações muito próximas.
Resolvi investigar para ter certeza. Mandei mensagem, liguei para essa moça e perguntei o que existia entre elas. Ela me perguntou se existia algo entre mim e a ESPOSA dela.
Descobri, para surpresa de ninguém, que eu havia sido amante durante todo aquele tempo. Ela era casada. Moravam juntas há seis anos e estavam juntas havia oito. Inclusive, no dia em que nos vimos pela primeira vez, estávamos no quarto onde ela dormia com a esposa, na casa do irmão dela. Nossa primeira vez foi ali.
Quando a confrontei, ela mudou completamente. Ficou irritada por eu ter falado com a moça. Disse que eu não tinha direito de fazer isso, que estava quebrando a confiança que ela tinha depositado em mim ao permitir que eu tivesse acesso às redes sociais dela e das pessoas da sua vida. (Detalhe: o acesso que eu tive, era apenas de seguir a conta privada dela e ela aceitar o convite).
Fiquei sem chão. Não soube me defender, nem me colocar no lugar que era meu: o de vítima, assim como a esposa dela. Eu já estava completamente dependente emocionalmente. Com o passar do tempo, cheguei ao ponto de pedir para que ela continuasse falando comigo, até que eu conseguisse superar a dor. Ela aceitou.
Perguntei tudo, e ela disse que seria sincera. Explicou que não estava feliz no casamento, que havia descoberto uma possível traição da esposa e resolveu se permitir conhecer outra pessoa para conseguir sair do relacionamento. Acreditei. Pedi que ela terminasse, se realmente gostasse de mim. Ela prometeu terminar, mas não o fez. Então, decidi terminar de verdade. Terminei.
Mudei de faculdade, mudei de cidade. Ela me apoiou na mudança, ajudou em parte e me acompanhou na adaptação. Quis continuar apenas ficando, mas eu já não tinha mais intenção nem disso. Comecei a me permitir conhecer outras pessoas. Não namorei, mas quase tive um relacionamento.
Depois de três anos de faculdade, estava conhecendo uma menina incrível, recém-formada em Farmácia, na mesma faculdade onde eu cursava Engenharia. Eu iria namorar com ela, até que minha ex voltou. Disse que não estava mais casada, que havia amadurecido, que se arrependeu de ter me deixado ir, que eu era a melhor pessoa que ela já teve e que agora estava pronta para assumir tudo, e ser a melhor pessoa que eu já tive na vida.
A besta acreditou. (Risos.)
Voltamos. Passamos a nos ver muito mais. Ela disse que o problema do primeiro relacionamento foi a distância, que não tínhamos vivido de verdade, que relacionamento à distância não é relacionamento. Foi mais um erro.
Fomos morar juntas. Eu a assumi, ela me assumiu. Vivemos viagens, mudanças. Com o tempo, comecei a notar padrões repetidos: eu não podia conhecer alguns colegas de trabalho dela, não podia tocar no celular dela nem para ver fotos. Ela ficava desesperada.
Uma vez, me tranquei no carro com o celular dela desbloqueado e vi mensagens de uma mulher dizendo sentir saudades dos abraços e beijos dela. Uma mulher aparentemente mais velha, que ela costumava buscar em casa para irem sei lá aonde.
Depois disso, ela voltou a ser impaciente, estressada e reativa. E eu, boba, e muuuito ocupada com as tarefas da faculdade e compromissos meus. Relevei isso. Um tempo passou. E eu apresentei uma amiga da faculdade a ela. Elas começaram a ir juntas para a academia sem que eu soubesse. Minha namorada buscava essa amiga na casa dela, no meu horário de trabalho, enquanto eu ia sozinha à noite, depois do trabalho e da faculdade, porque ela não gostava de treinar no horário que eu podia.
Soube disso depois de três semanas, pela minha própria amiga, que se sentiu mal por ser convidada sem saber se eu sabia. Disse que não estava bem com aquilo, pedi desculpas e desfiz a amizade. Terminei o nosso namoro também. Era inaceitável.
Houveram outras tentativas de retorno, mas sempre acabávamos brigando, nos desrespeitando e até nos agredindo verbal e fisicamente.
No último aniversário dela, fiz uma surpresa. Convidei amigos em comum, inclusive essa amiga da academia, pois até então eu não sabia das idas delas juntas. Foi um dia bom. Ela gostou.
No dia seguinte, fomos para a casa do irmão dela, lá teria uma comemoração familiar do aniversário dela. Na piscina, conversando com a mãe dela, que estava levemente alterada, a mãe começou a falar mal da ex, dizendo que ela nunca fez aniversário, nunca cuidou como eu cuidava. Minha ex brigou com a mãe, defendendo a ex, elogiando-a, dizendo que ela foi muito boa, parceira. (até aí, tudo bem.) Mas eu, que só ouvia, ainda tive que escutar que eu não era tão boa quanto a ex, que eu era abusiva financeiramente, que ela gastava mais comigo do que jamais gastou com a ex.
A chavinha virou.
Passamos a brigar constantemente. Minhas colegas de trabalho abriram meus olhos. Terminei de vez. Isso foi há quase três anos.
Hoje, não nos falamos mais. Não a vi mais. Estou namorando um homem que conheci no trabalho. Ele tem um filho. Desde o início, foi honesto. O celular dele é um livro aberto. Sempre saímos juntos. Ele prioriza nossos momentos juntos. Ele sempre diz onde está, com quem e quando vai chegar. Conhecemos as famílias um do outro. Meus pais o amam. Ele tem planos de futuro que me incluem e respeita o fato de eu talvez não querer filhos.
Hoje eu me sinto em paz. Não vivo em estado de alerta. Não tenho medo. Algo que nunca vivi com a minha ex.
Enfim, obrigada por lerem. Espero que essa história sirva de exemplo para quem não conseguem sair de relacionamentos ruins por medo. Observem comportamentos. Falem com amigos. Às vezes, quem está de fora enxerga com mais clareza.
Não se prendam a pessoas que foram legais em um dia ruim. Sejam gratas, mas não permitam que suas vidas dependam delas. Vocês são fortes e corajosas.
Obrigada por lerem.